Um segundo a mais
Não foi num minuto, muito menos em dois foram dois anos de um todo perfeito com o qual não sei viver.
Nunca esquecerei o dia em que te conheci. No dia 8 de Abril de 2004, tinham acabado de me telefonar de uma empresa onde tinha sido escolhida entre 200 concorrentes, comecei aos saltinhos na rua e a gritar como uma doida mas depressa me recompus, foste tu, tu estavas do outro lado da rua à espera que o sinal verde abrisse para passares para perto de mim, olhavas-me nos olhos, não com olhos de diversão mas com olhos sorridentes de quem tinha feito alguma descoberta incrível. Olhei para ti, mas depressa me distrai com um carro apitar para que passa-se enquanto fosse tempo, perdi-te. Procurei-te por uns segundos mas acabei por chamar estúpida a mim própria por achar que um homem assim se ia interessar por mim, convenci-me que não tinha sorte ao amor e continuei andar pelas ruas aos saltinhos e sorrisos.
No dia seguinte, fui ao 1º dia de trabalho, o nervoso natural, pessoas novas, chefe novo, edifício novo… tudo novo. Tudo corria bem, pareciam todos simpáticos mas mesmo assim fui almoçar sozinha para organizar ideias e reflectir a manhã, não o fiz. Tu sentas-te à minha frente, não pediste licença, não disseste uma palavra, apenas limitas-te a sentar e comer. Eu, parecia uma parola, não sabia se havia de conversar ou comer, não fiz nenhuma das duas, estava nervosa, parecia uma miúda antes de dar o 1º beijo. Até que ele disse “Olá!”, que coisa estúpida para se dizer. Olá? Olá? Só podia estar a brincar, pensei em mil maneiras de o abordar durante o almoço e ele diz olá. Tinha que responder e disse “Olá!” e de seguida pensei em dizer mais alguma coisa mas calei-me esperando ouvir a voz do outro lado, não ouvi nada, levantou-se da cadeira e foi-se embora. Será que não gostou da minha voz? Pensei.
Voltei ao trabalho, não podia fazer mais nada, mas recebi um telefonema e do outro lado apenas escutei “ Foi mais que um simples olá que se ouve várias vezes durante o dia, foi o olá do começo de um todo… não te assustes! Sou o Pedro e hoje almocei contigo.” e desligou-se, não pude dizer uma palavra, nada, ele apenas desligou, queria fazer perguntas, receber respostas, mas nada.
No dia seguinte, fui ao mesmo restaurante e ele sentou-se a meu lado, pediu desculpa pelo telefonema, mas que tinha medo das minhas palavras, trabalhava no mesmo sitio que eu e conversamos a hora toda, a minha comida ficou fria, a comida dele ficou fria mas acima de tudo o meu coração ficou aquecido como há muito não acontecia. O meu trabalho durante a tarde foi tão pouco que até eu despedia-me a mim própria, mas isso não aconteceu, quando sai, ele esperava-me à porta, não me apercebi que era por mim que esperava quando o vi, mas depressa ele se dirigiu de mim e pediu que o acompanhasse. Não sei bem porque, segui-o sem perguntas.
Meteu-me no carro dele, enquanto eu balbuciava palavras soltas sem qualquer sentido, levou-me por umas estradas desconhecidas cheias de florestas e casas abandonadas, era tudo muito bonito mas a minha ansiedade fez que não reparasse em nada. Depois de andar para ai uma meio hora, ele parou o carro em frente a uma casa que parecia tirada de um conto de fadas, era uma casinha pequenina com árvores à volta, tinha uma risca cor-de-laranja onde o sol batia levemente, as janelas pequeninas pareciam esconder muitas histórias e a porta de madeira parecia ser a chave para a descoberta do mundo, e era. Quando entrei, deparei-me com a sala, uma lareira ao canto e uma televisão velha em frente a uma sofá branquinho perfeito para ele, atrás estava uma parede com prateleiras cheias de livros de todos os tamanhos e feitios, nunca mais esqueci aquela primeira imagem. Queria ver o resto da casa, descobrir cada canto daquele pedacinho maravilhoso de vida, mas ele agarrou-me no braço e puxou-me na sua direcção, encostou o peito dele ao meu e pediu-me que lhe tocasse no coração, suavemente transportei a minha mão até à parte esquerda do seu corpo e senti a velocidade a que batia, o que podia fazer? O meu estava igual, parecia que ia explodir a cada segundo. O meu pensamento foi interrompido, ele puxou-me com mais força contra ele, elevou-me e deu-me um beijo. Eu queria dizer que não, pedir para que parasse, que não era assim, que gostava de ir com calma mas ele não me deixou respirar, cada beijo era mais intenso e poderoso que outro, cada beijo pedia para que continuasse, cada beijo fazia com que sorrisse por dentro, cada beijo me deixava louca. A noite foi longa, ele levou-me para o quarto, despiu a camisola para que pudesse ver os abdominais perfeitos que escondia, depressa se deitou na cama e desapertou casa botão da minha camisa com cuidado, quando chegou ao fim olhou por um segundo e depressa voltou ao verde dos meus olhos para de seguida beijar os meus lábios sem que pedisse nada em troca, tudo o resto se desenrolou como se nos conhecemos desde miúdos e soubéssemos todos os pontos de satisfação um do outro mas só agora os satisfizéssemos. Adormeci com um sorriso nos lábios e um aperto no coração.
Quando acordei estava sozinha, olhei para a janela e o sol já ia alto, estava um dia de céu limpo e o sol brilhava a todo o seu esplendor. Depressa me lembrei que devia ser tarde e eu não podia faltar logo no 2ºdia de trabalho mas o Pedro entrou no quarto com um enorme tabuleiro com um café, uma papaia, umas torradas mal feitas barradas com muita manteiga e uma margarida branca que logo me fez sorrir. Percebendo que estava meio assustada disse-me que era Sábado e podia ficar descansada. Metemos-nos na cama e comemos as deliciosas iguarias que ele tinha preparado.
Quando acabei vesti-me e demos uma volta pela floresta, se não quando descubro que depois da floresta existe uma descida para o sitio onde a terra, o fogo, a água e o ar se ligam perfeitamente, a praia. Não sei que praia era muito menos onde ficava, mas sei que era linda, em cima uma falésia que descia para uma macia areia de muitos quilómetros desertos, ao fundo lá estava o mar a criar e a explodir ondas com a força que sempre o caracterizou e que deixa sentir um dos sons mais bonitos da natureza. Sentamos-nos mesmo no meio da praia e em silêncio continuamos durante longos minutos, levantei-me e fui experimentar a temperatura do mar, tal como esperava estava fria mas não deixei de a sentir ao deixar-me ficar. Pouco tempo depois, sinto umas pingas de água fria nas costas, cheirava-me a uma guerra e tudo começou até ficarmos encharcados não só em água como também em risos.
Voltamos a casa para nos secarmos, o Pedro fez o almoço, não me lembro o que era mas sei que me deixou muito bem impressionada. A tarde foi diferente, quis falar com ele, percebe-lo, e ele acedeu, disse-me que não tinha aquela intenção, que não entendia, que ele não era assim, mas que eu o fazia sentir bem e eu deixei-me levar por tais palavras e disse-lhe que sentia o mesmo, que não queria que fosse mais uma aventura de uma noite, que não sabia bem porque mas tinha a sensação que ia correr bem, que desta vez podia arriscar. E arrisquei!
Foram meses intensos, cheios de amor, paixão e loucuras, nunca tinha sentido nada assim, o Pedro era como vida em mim, ele era a minha praia. Sempre que me sentia mal ou demasiado bem ia para a praia, agora bastava-me tê-lo a meu lado a toda hora se possível. Nunca acreditei em amores assim, achava insignificante quando as minhas amigas falavam sobre almas gémeas e caras metade, até que chegou a minha vez e dei-lhes razão, ele era tudo isso e muito mais. Ele era o meu melhor amigo.
Um ano depois de nos termos conhecido fui viver com ele, não podia em mim de contente, eu, Carla Mulato fui viver para uma casa de encantar com um homem de encantar. Tudo passava a correr e sem pensar dois anos se passaram com ainda mais amor, paixão e loucura. Estava na altura de concretizar um sonho meu, ter um filho dele. Foi uma conversa impressionante, eu falei-lhe disso e ele apenas disse “Não poderei morrer sem deixar no mundo alguém tão bonito como tu”, quando ele disse aquilo chorei, chorei pela felicidade que aquele homem me deixava.
Como todos os casais, começamos a tentar e tudo corria bem, até ao dia em que recebi um telefonema, que não era do Pedro, era um número desconhecido, pensei não atender, sabia que não seria bom mas o dedo pressionou a tecla e uma voz do outro lado avisou-me que o homem que eu amava, o único que eu tinha amado, aquele que me amava tinha morrido. Cai, não quis ouvir outra palavra daquele homem que não sabia nada sobre nós, corri para o hospital a tempo de ver pela última vez o homem que tinha tornado a minha vida perfeita. Tinha morrido, morrido porque a pressa de chegar ao trabalho o fez andar mais rápido do que o devido, e a culpa era minha.
Não me lembro dos dias, sei que fui a um velório e que chorei num funeral mas não me lembro de nada, sei que perdi o emprego e que emagreci mas não me lembro de nada.
Ainda hoje, não sei como aguentei aqueles dias, mas a verdade é que agarrei-me não sei ao que e agora preciso de arranjar algo para fazer e recomeçar a minha vida, preciso de um sorriso em mim.
Para começar, vou à minha primeira consulta como grávida…
Deixas-te o que querias meu amor, só queria que estivesses aqui para conhecer o único gesto que nos faltava para tudo ser perfeito.