segunda-feira, 26 de julho de 2010

O que vi no Ensaio sobre a Cegueira

Cego da noite e do dia me vejo, mas mais cego me sinto da vida. Rio sem que os olhos expressem minha alegria, choro sozinho para que ninguém veja mas sei que só do ouvido me podem ver.
Angustia sinto-a dentro de mim com a névoa branca que me escurece o olhar, fecho os olhos para ver o negro de toda a brancura que só posso ver ao abrir, nada mais. Se pudesse ver o contorno do teu rosto, não precisava de lhe tocar, se pudesse saborear a cor do teu olhar, não precisava de o imaginar, se só por instantes te pudesse ver, não precisava de sonhar.
A 1º impressão tem-se pelo olhar para mim e para todos, agora, terá de ser no toque, na voz, no querer te ter. O amor é cego mas não o é a paixão, preciso de recordar cada contorno do teu corpo, da tua vida para me apaixonar. Paro por um momento, sei que este não é o caminho certo, viro para que lado? Tanto faz, tudo está sujo e imundo.
Só agora percebi que um de nós pode ser cegamente Homem mas todos juntos somos cegamente Ninguém, percebi que se perde o sentido quando o que era já não o é. Que quando olhamos sem olhar uma humanidade perdida já não é o dinheiro, que tanta falta faz, que nos faz falta. É sim, aquilo que antes conseguíamos com ele e agora não conseguimos.
Arte deixou de ter sentido. As pinturas não podem ser vistas, os livros não podem ser lidos e a música pode ser cantada mas não ouvida pelo artista. Fechei e fiquei fechado em mim, tudo o que faça não tem importância, ninguém me pode dizer se errei se nas palavras lhe falta a vista e no ouvido lhe falta o saber.
Tenho o toque mas só o posso sentir, tenho ouvido mas só pode escutar, tenho quase e tudo e falta-me o ver.
Cada um compreende como desejar mas eu que não sei mais que dizer, calarei-me ao mundo o que o olhar já calou ao universo.
“Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem" José Saramago (Ensaio sobre a Cegueira)

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